Um bem­‐haja a voltar aos lugares onde fomos felizes

(continuação)

Muito eu podia escrever sobre Nova Iorque. Esta crónica podia ser para falar apenas das ruas e avenidas desta cidade que nunca dorme ou então para falar de um pôr do sol de sombras negras e cor de laranja. Mas Nova Iorque é muito mais do que isso e muito mais do que eu consigo descrever. É olhar para cima, em qualquer uma das direções da rosa dos ventos e mais alguma e não ver onde terminam os arranha céus. É luz, é gente, é movimento. É o Central Park, é o Empire State Building e é a Brooklyn Bridge.

Ela não é simpática, não é hospitaleira nem encantadora.
Se fosse um animal, Nova Iorque podia muito bem ser uma gazela. É uma cidade rápida, sem descanso, inquieta e irrequieta. É dura, apressada, suja, despenteada e dizem que perigosa. Tem olheiras e muitas rugas. É exigente. É delinquente.
Em Nova Iorque andei a maior parte do tempo sem mapa. Não gosto de viajar com mapa nem com roteiro traçado.
Talvez tenha sido por isso que deixei a cidade sem visitar tantas coisas que queria visitar. Mas essa é a melhor desculpa para voltar: não gastar mais do que um dia inteiro no Central Park é inadmissível, tenho de voltar por isso. Ter ficado desde as quatro horas da tarde até às oito da noite no topo de um dos edifícios mais altos do mundo a ver o pôr‐do­‐sol mais cor de laranja de sempre é muito pouco. Também tenho de voltar por isso.
E eu gostava ainda de vos falar do Memorial do 11 de Setembro, mas sou muito pequenina para vos falar de um lugar com tanta simbologia e com tanto pesar. Sou só capaz de dizer que naquele espaço, agora ocupado por dois vazios, se grita, respira e transpira Paz.
Tenho de voltar por tudo o que vi e por tudo o que não vi. Tenho de voltar porque lá eu fui feliz. Estive sozinha, às vezes com vontade de estar acompanhada, mas estive feliz porque quando viajamos sozinhos crescemos a um ponto que não é fácil enxergar. Faz‐nos mais atentos aos outros e faz­‐nos ser mais do que um, do que dois, do que muitos. Faz­‐nos ser quem passa e quem nos serve um café. Faz­‐nos ser artistas, apreciadores de arte, pedintes.

Faz‐nos ter medo, não vos minto.

Mas também nos faz inspirar coragem, cruzar cada quarteirão pela primeira vez e expirar felicidade pura pelo que os nossos olhos alcançam.

Nova Iorque não é uma cidade grata. Não é daquelas que permitem que uma pessoa vá visitar uma só vez. É convencida, egoísta e cria dependência. Manipula­‐nos de um jeito que não nos apercebemos e quando damos por ela já é tarde. Já estamos a ver quando podemos voltar novamente porque queremos ver mais e mais e porque queremos ver outra vez. Porque queremos encontrar melhores palavras que descrevam esta cidade. Porque todas estas palavras são poucas para dizer o que Nova Iorque é. Para já, só vos consigo dizer que é opulenta.

Nova Iorque, a mim, sozinha, faz­‐me ter vontade de não ter apanhado este avião de regresso, sequer. Um bem­‐haja a voltar aos lugares onde fomos felizes. “Mas à procura de outros tipos de felicidade, que aconteçam a outras horas do dia.”

Galeria de imagens aqui.

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