“Disseram‐me que, para a América, quem vai não volta.”

“Dou‐te um mês para voltares.”

“Dou­‐te três meses para estares a apanhar o avião de regresso, não vais aguentar as saudades.”

“Fizemos uma aposta e eu acho que voltas precisamente dentro de 62 dias e ela diz que aguentas 105 dias.”

“Por favor não vás. Fica.”

Estaria a mentir se vos dissesse que estou a morrer de saudades. Não estou. Não pensem, por isso, que sou pouco sensível e que trago em mim um coração duro. Eu penso em todas as minhas pessoas, todos os dias. Penso,e quando penso, sinto nostalgia. Mas a nostalgia sempre foi um dos meus sentimentos preferidos. É um sentimento quente, sépia, aconchegante. É um sentimento que me diz que tenho sorte por ter boas memórias para guardar no coração. Quando eu sentir saudades eu vou dizer‐vos e não vou, por isso, estar a dar parte fraca.
Imagino­‐me em Amarante, a subir a 31 de Janeiro e, antes de passar na Ponte de São Gonçalo, entro na Confeitaria da Ponte para comprar um “Pingo de Tocha”. Um não, dois. Nunca provaram? Então não provem porque é viciante. (O Ricardo que me desculpe!). Depois passo a ponte de S. Gonçalo e penso, como tantas vezes pensei quando lá passava, que temos um Mosteiro e uma Ponte imperiais. É domingo. Então, há uma senhora com uma máquina de pipocas e um filho a vender balões. Se fosse sábado, o terceiro do mês, havia uma feira de antiguidades e velharias em frente ao Mosteiro. Mas é domingo, há famílias a passear e não há feira nenhuma. E, como Amarante é um vale encantado em toda a sua verdade, há as gaivotas do Tâmega e há namorados enamorados na Ilha dos Amores

Se conseguir resistir à tentação e comer só um dos dois “Pingos de Tocha”, ainda passo pela Confeitaria Mário para comprar 2 dólares ­‐ desculpem, euros ­‐ de suspiros. E vou cumprimentando quem passa ali e acolá porque aqui todos são conhecidos.

Depois, como me estou a imaginar num domingo, faço as malas e vou com uma amiga de boleia para o Porto. E todos os domingos são como um ritual. Ela espera­‐me à porta de casa, vou sempre atrasada. Fazemos a viagem para o Porto a ouvir aquele nosso CD, aquelas nossas músicas. Chegamos ao Porto e decidimos se vamos para casa dela ou para a minha. Em geral é para a minha e já sabemos que a estadia é para toda a semana. Por esta altura ‐ e isto eu não estou a imaginar ­‐ esta minha amiga já está a chorar. Tu choras e eu rio, e depois tu ris e choras as mesmo tempo e depois rimos as duas. Tu voltas a chorar e eu abraço­‐te.
Eu não tenho um coração duro nem um coração incapaz de sentir saudades. Eu dei duas opções ao meu coração: ou ele crescia, ou ele transbordava. Ele optou por crescer porque viu, a tempo, que desperdiçar sensações que lhe dão saúde não era uma opção. Então é isto. Eu tenho um coração que cresce todos os dias. Eu invento ou recordo episódios, pessoas ou sítios, e guardo­‐os lá, no meu coração. E ele cresce, fica feliz e agradece. E pede por mais.

“Disseram‐me que, para a América, quem vai não volta.”

Eu hei­‐de voltar. Não é para já, mas hei‐de voltar. Enquanto me sentir bem aqui, enquanto sentir que este lugar me quer, por cá ficarei. Não sinto que este seja o meu espaço, que esta seja a minha casa. Casa tenho uma e sei bem qual é. Mas, enquanto estiver feliz aqui, por cá ficarei.

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