O amanhã que nunca chega

Uma vez, não sei precisar quando, mas para aí há uns 15 anos, eu pensei: “o amanhã nunca chega. Quando for amanhã, já vamos estar no hoje, à espera de um amanhã que será sempre um hoje.” Lembro‐me que, na altura, achei que tinha acabado de descobrir uma grande teoria que me poderia levar para as capas dos jornais, para as aberturas das notícias na televisão, para as luzes da ribalta, para as bocas dos “quatro cantos do mundo”.

Afinal, eu era só uma tonta que, apesar de na altura estar longe de ser das melhores alunas da turma, já sabia que o amanhã não ia chegar.
Mesmo assim, depois desta “minha” teoria me ter acompanhado durante todos estes anos, eu continuo a pensar que “amanhã eu vou responder a esta mensagem”, “amanhã eu vou devolver esta chamada”, “amanhã eu vou mandar um e­‐mail”.

Penso sempre que amanhã eu vou fazer. “Amanhã vou ter tempo para trocar dois dedos de conversa por quem sinto afeto”, “amanhã eu vou dizer que lhes sinto a falta”, “amanhã eu vou dizer‐lhes que estou feliz. Às vezes com um aperto no coração mas, ainda assim, feliz.”
Às vezes, muitas vezes, a maior parte das vezes, este amanhã acaba por não chegar. Às vezes, não há tempo para este bocadinho de amanhã. Mas não é por mal, não é por não querer saber. Quem me conhece pode confirmar isso. Não é defeito. É feitio, é de mim.

E as mensagens por responder vão‐se acumulando. Como se de cartas se tratassem, são arrumadas numa caixa de sapatos forrada a tecido com uma etiqueta que diz “por responder” e vão ganhando aquele cheiro a papel antigo, aquele tom amarelado e aquele toque rugoso. Se fossem mesmo cartas, eu envolvia‐as com uma fita de seda vermelha e atava‐as com um laço perfeito. E guardava‐as com carinho, por baixo da minha cama, do lado esquerdo, aquele lado em que mora o coração.

Nos dias de hoje já pouco se usam as cartas, mas a intenção das pessoas continua lá. Querem saber de mim, se está tudo a ir pelo melhor, se a experiência está a valer a pena. Querem realmente saber de mim – caso contrário não me davam do seu tempo – e muitas vezes eu penso que amanhã vou trocar palavras e sentimentos com essas pessoas. “Amanhã, eu vou fazer com que elas saibam que eu também quero saber.”

Este texto, que roça a justificação, é para todas as pessoas que eu deixei, e continuo a deixar, sem resposta. Não prometo que não o voltarei a fazer, jamais. Eu sei que vou. Mas vou­‐me educar para ir deixando este feito feio de lado, de preferência do lado de fora.
Não quero perder mais tempo com o amanhã e quero fazer com que o hoje seja tempo ganho. Hoje importa, hoje eu estou aqui, hoje vocês estão aí e, de alguma forma, aqui também. Hoje é agora. E agora, eu vivo.

Então, enquanto o amanhã não chega, eu quero ter pressa em viver. Quero ter pressa em viver cada dia, todos os dias, todos os hojes.

Remate: A minha mãe está sempre a pedir­‐me por uma carta. Mãe, um dia eu vou escrever­‐te uma carta. Mas não vai ser amanhã. Vai ser um dia. E depois, quando um dia o carteiro te entregar a carta e tu a abrires e a começares a ler, tu vais chorar. E eu não quero que tu chores. Então, eu já decidi. Eu vou‐te escrever uma carta num dia em que eu também queira chorar, assim vamos chorar as duas e não nos vamos importar porque sabemos que nos temos.

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