Nós somos o sítio que nos faz falta

Li que “nós somos o sítio que nos faz falta”. Revi‐me, no mesmo instante, na frase. Numa análise momentânea eu não podia estar mais de acordo. Pensei que então eu sou Amarante, sou Porto e sou Portugal. Adiante.
Quando tenho a certeza de que não perdi o comboio para a downtown, sossego. Durante toda a semana fico à espera que este momento chegue. Entro no comboio que me vai levar até à Union Station e sei que, quando sair do comboio e subir as escadas que me levam do subterrâneo até ao mundo dos prédios‐altos­‐que­‐fazem­‐doer­‐o­‐pescoço, vou ter nos meus olhos o brilho que uma criança tem quando sonha. Não vou estar em lado nenhum e vou estar em todo o lado, não vou estar com ninguém e vou estar com todos os que amo no coração. Sim, porque estar deste lado sozinha não é fácil! Foi por isso que decidi trazer­‐vos no coração e é com vocês que conheço a cidade, sempre como se fosse a primeira vez.

Lembro‐me que em Portugal são mais 6 horas do que aqui, então talvez vocês precisem de alguma energia para me acompanhar. Tomem um sorriso e respirem este ar que não cheira ao nosso país.
É bom não me sentir uma turista, não sou fã de turismo. Não trago uma máquina ao peito que me acuse. Ao invés, trago uma objetiva nos olhos e um espaço reservado para guardar todas as imagens capturadas de pessoas que não me vêem, pessoas demasiado preocupadas e apressadas com as suas vidas.

Durante o dia, aquela frase vem‐me à cabeça várias vezes. Nós somos o sítio que nos faz falta. Penso melhor. Eu não sou só Amarante, Porto ou Portugal. Eu deixei pedaços de mim noutros sítios. Em todos deixei sorrisos, a curiosidade que levava e que não matei – muito pelo contrário, só alimentei – deixei palavras e conversas (tantas!). Deixei lágrimas também. Em Bruxelas, quando ia fazer o check‐in para voar até Bratislava, vi que tinha deixado ficar a minha identificação algures… ou nenhures. Nunca apareceu e já não viajamos para Bratislava. E depois trouxe a saudade que não há tempo que cure. Trouxe saudades de cada passo que dei em ruas que nunca tinha posto os meus pés, de cada pôr­‐do­‐sol, de cada pinga de chuva, de cada café que mais parecia água suja, de cada mergulho, de cada pessoa desconhecida que vi uma vez na minha vida e apenas de passagem, de cada copo de vinho, de cada cheiro novo.

Mas não é uma saudade daquela que dói e que às vezes me deixa desconfortável. É uma saudade boa, uma saudade que me faz bem e que me faz ser mais.
Eu sou também os sítios que não conheço. Sou Nova Iorque, Berlim, Shangai e sou Roma. Sou Rio de Janeiro, Bogotá, Camberra, Moçambique, Istambul e mais, muito mais. Hoje, neste preciso momento, eu já sou todos os sítios onde nunca estive. Afinal é para lá que eu estou a caminhar e é nesse sentido que eu estou a levar a minha vida. Se tudo se vai concretizar? Isso logo se vê.

Se um dia eu não sentir mais esta saudade, se um dia cada sítio for só mais uma passagem e um avião, então venham ter comigo e chamem‐me à razão. É que nesse dia eu não vou estar a ser feliz.

Vejo o mundo de cima e sou um ponto minúsculo que facilmente é engolido por construções de vidro e betão. Sou um ponto minúsculo deitado num banco de jardim, mas ainda assim grande o suficiente para ter o mundo em mim. Estou exatamente onde quero estar. Hoje, é aqui onde eu quero estar.

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